Quando a falta de ar pode ser hipertensão pulmonar
Essa doença rara e grave pode ser controlada com os tratamentos atuais. Mas isso depende de um bom diagnóstico
Imagine uma mulher de 50 anos e ativa, mas que de repente começa a ficar sem fôlego para subir escadas, com cansaço persistente e palpitações. Ela busca médicos e ouve justificativas como “isso é normal na sua idade” ou “pode ser ansiedade”. Mas e se, na verdade, o pulmão estiver sofrendo com uma doença rara — e, muitas vezes, ignorada?
A hipertensão arterial pulmonar é uma doença séria, na qual as artérias do pulmão endurecem e ficam estreitas. Isso força o coração a trabalhar demais, o que aumenta o risco de falha. No Brasil, o quadro tende a ser subdiagnosticado, pois os sinais iniciais (falta de ar, cansaço e palpitações) são facilmente confundidos com outras condições.
Para diagnosticar essa condição, pacientes geralmente passam por:
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- Ecocardiograma: exame que revela o primeiro indício de sobrecarga nas artérias pulmonares.
- Raio-X de tórax e testes de função respiratória: eliminam possíveis causas alternativas.
- Cintilografia pulmonar: quando se suspeita de coágulos crônicos.
- Cateterismo cardíaco direito: é a avaliação que fecha o diagnóstico. Ela mede diretamente a pressão nas artérias pulmonares.
Acontece que, se não houver suspeita, muitos nem chegam a essa etapa decisiva. E é bom deixar claro: os tratamentos são capazes de aliviar sintomas como falta de ar e fadiga, aumentar a capacidade de caminhar e realizar tarefas diárias. Eles conseguem frear ou até reverter o avanço da doença.
Entre as opções, constam sildenafila, bosentana, ambrisentana, macitentan, selexipague, prostaciclinas (como iloprosta) e diuréticos. A decisão depende de uma avaliação profissional.
E os custos?
O gasto anual médio de tratamento por paciente no SUS atinge cerca de R$ 19.200, dos quais 76,5% vêm de medicações.
Em pacientes de alto risco, o valor chega a R$ 26.351. Já em casos mais leves, fica por volta de R$ 13.260, segundo pesquisas realizadas pelo Instituto do Coração.
Sotatercepte: uma revolução em curso
Em dezembro de 2024, a Anvisa aprovou o sotatercepte — o primeiro medicamento de uma nova classe com mecanismo inovador. Esse fármaco atua nas vias de sinalização celular dos vasos pulmonares, restaurando o equilíbrio entre sinais que estimulam e inibem o crescimento de células vasculares, o que ajuda a desestruturar o processo de estreitamento dos vasos.
No estudo clínico STELLAR (de fase 3), o sotatercepte adicionado à terapia de base fez com que os pacientes andassem até 41 metros a mais no Teste de Caminhada de Seis Minutos. Eles também tiveram redução de eventos clínicos, como piora significativa da doença.
Já em pacientes com risco elevado, o estudo ZENITH revelou que o sotatercepte reduziu em 76% o risco combinado de morte, transplante pulmonar ou hospitalização por piora da hipertensão pulmonar, em comparação com placebo. E uma meta-análise mostrou ainda a melhora na capacidade de exercício, na redução da pressão arterial pulmonar e na resistência vascular pulmonar, com perfil de segurança aceitável.
A Anvisa já aprovou essa medicação, mas ainda não há informação sobre sua incorporação no SUS. Por enquanto, o acesso se dá via planos privados, ações judiciais ou centros de referência.
Nos Estados Unidos e no Reino Unido, o preço estimado de tratamento é de cerca de US$ 240.000 por paciente ao ano, o que equivale a mais ou menos R$ 1,2 milhão. Isso reflete uma barreira de acesso significativa, mesmo em países ricos.
Falta de ar, cansaço e palpitações não são normais. Se sentir esses sintomas, questione seu médico sobre a hipertensão pulmonar. Sem suspeita, não há exame. Sem exame, não há diagnóstico. E, sem diagnóstico, não há tratamento que mude o curso da doença.
28 de agosto de 2025
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